É possível não criar expectativas?

É impossível não criar expectativas, mas é importante estar preparado para a frustração se aquela expectativa não for atendida.
Expectativa

Por que temos tanto medo da decepção?

A frustração faz parte da experiência humana, mas isso não impede que muita gente passe a vida tentando evitá-la. Criamos expectativas o tempo inteiro, sobre relacionamentos, trabalho, família, reconhecimento, sucesso, amizade e até sobre quem acreditamos que deveríamos ser. O problema é que, muitas vezes, essas expectativas não são conscientes. Elas operam em silêncio, moldando a forma como enxergamos os outros e interpretamos a realidade.

Esperamos que o outro demonstre amor do mesmo jeito que demonstramos. Esperamos que alguém reconheça nossos esforços sem que seja preciso dizer nada. Esperamos que uma mensagem seja respondida com a mesma rapidez com que nós responderíamos. Esperamos que determinadas atitudes sejam óbvias para o outro porque são óbvias para nós. E então, quando a realidade não corresponde ao roteiro imaginado, surge a frustração.

Só que a frustração raramente está ligada apenas ao acontecimento em si. Muitas vezes, ela revela o tamanho da expectativa construída antes dele. Um cancelamento de última hora pode parecer abandono. Uma crítica simples pode soar como rejeição. Um silêncio pode ser interpretado como desamor. Não porque esses fatos necessariamente tenham esse significado, mas porque tocam em algo que já existia internamente.

Expectativas e dependência emocional

Há uma tendência muito comum de acreditar que sofrer menos depende de criar menos vínculos ou esperar menos das pessoas. Mas não funciona exatamente assim. O ser humano deseja, projeta, cria fantasias e imagina cenários o tempo todo. Isso faz parte da experiência humana. A questão não é eliminar expectativas, isso seria impossível, mas talvez seja perceber o quanto da sua vida emocional está apoiada em ideias idealizadas sobre como os outros deveriam agir para que você se sinta seguro, amado ou validado.

Muita gente vive emocionalmente dependente de confirmação externa. Precisa do retorno do outro para sustentar a própria autoestima, as próprias escolhas e até a própria identidade. E quando essa confirmação falha, a frustração aparece de forma intensa. Não porque o mundo acabou, mas porque algo ali sustentava uma sensação de valor pessoal.

Nas relações afetivas isso fica ainda mais evidente. Às vezes, a pessoa não se apaixona exatamente pelo outro, mas pela ideia que construiu sobre ele. Ama a promessa, a projeção, o que imagina que aquela relação poderá preencher. E quando o outro mostra limites, diferenças ou desejos próprios, surge o choque entre fantasia e realidade. Muitos relacionamentos não terminam apenas por falta de amor, mas pela dificuldade de sustentar a existência de um outro que não corresponde completamente às expectativas criadas.

A psicanálise não propõe uma vida sem frustrações, pelo contrário. Ela entende que a frustração tem uma função importante no processo de amadurecimento psíquico. É justamente através dela que alguém pode começar a diferenciar vontade de controle, amor de dependência e presença de posse. A frustração revela pontos sensíveis, mostra onde existe excesso de idealização e onde talvez alguém ainda espere que o outro ocupe um lugar impossível.

Talvez uma das experiências mais difíceis da vida adulta seja aceitar que o outro nunca será exatamente aquilo que imaginamos. E mais difícil ainda é perceber que nós também não seremos. Existe um luto importante em abandonar versões idealizadas da vida, das relações e de si mesmo. Mas é justamente nesse espaço menos fantasioso que relações mais reais podem existir.

Porque enquanto alguém insiste em exigir da realidade aquilo que ela não pode oferecer, continuará vivendo entre expectativas irreais e frustrações constantes. E talvez a vida fique mais interessante se aprendermos a lidar com a verdade de que o outro é diferente da fantasia que construímos sobre ele.


Oi, sou a Patrícia Albanez!

Sou psicanalista lacania e minha prática está fundamentada no estudo constante da obra de Lacan e Freud, com participação ativa em grupos de formação, supervisão clínica e pesquisa. Afinal todo bom analista investe em sua formação contínua!

Recebo na minha clínica adultos, que sofrem com atravessamentos como relações conflituosas, angústia, vazio existencial,repetições inconscientes e impasses subjetivos entre outros tantos.

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