Autenticidade é pop!
Vivemos uma época em que a palavra autenticidade circula com facilidade, mas raramente é aprofundada. Especialmente em contextos de alto desempenho, sucesso financeiro e visibilidade social, ser autêntico parece mais um atributo a ser exibido do que uma construção a ser sustentada. A pergunta que realmente importa não é se é possível ser completamente autêntico, mas o que estamos dispostos a perder para nos aproximarmos disso.
Quero percorrer esse tema a partir de situações cotidianas, aquelas que atravessam escolhas de estilo de vida, relacionamentos, trabalho e posicionamento social. Muitas pessoas seguem tendências, adotam discursos, hábitos e até valores sem se perguntar quais são as consequências subjetivas dessas escolhas. Será que esse modo de viver é sustentável para você? Não financeiramente apenas, mas como um todo.

Ser ou parecer?
A era da inteligência artificial apenas amplificou algo que sempre existiu, a lógica do parecer em detrimento do ser. A curadoria da imagem, o discurso ajustado ao que é mais aceito, o medo de destoar. Por que expressar a própria singularidade provoca tanto receio? Porque ser autêntico implica abrir mão de garantias, inclusive da aprovação constante do outro.
Autenticidade não é querer parecer autêntico. É, antes, sentir o que de fato funciona para si e avaliar se há condições de sustentar as próprias escolhas. Sustentar aqui não é insistir cegamente, mas assumir os efeitos do que se escolhe. Para muitos, esse ponto esbarra na dependência emocional, que se manifesta como uma necessidade contínua de validação externa. Quando o reconhecimento não vem, ou vem de forma instável, o sujeito passa a moldar suas decisões a partir do olhar do outro, afastando-se do que realmente deseja.

Outro ponto central é a capacidade de fazer uma autocrítica dos próprios pensamentos e comportamentos. Refletir sobre si é importante, mas há um limite claro para o quanto conseguimos enxergar sozinhos. Existem pontos cegos que só aparecem no encontro com um outro. É nesse espaço que a psicanálise se torna fundamental. No diálogo analítico, aspectos do discurso que passam despercebidos ganham contorno e sentido.
Como costumo dizer, é preciso lidar com o não todo. A ideia de completude é sedutora, mas ilusória. Autenticidade não é um estado final, mas um processo. Na psicanálise lacaniana, ela pode ser construída pela análise da lógica discursiva, pela forma como o sujeito se coloca no mundo e se relaciona com seus próprios significantes. Cada análise constrói sua verdade, sempre como hipótese, testada pelos efeitos que produz no discurso do analisando.

Esse percurso não é padronizado. Cada caso leva um tempo diferente e depende do quanto o sujeito se implica no trabalho analítico. A vida também não é linear. Mudar de ideia, rever posições e até voltar atrás não é fracasso, muitas vezes é justamente avançar. Prioridades se reorganizam, nada é tudo, a existência se constrói como um patchwork, feito de escolhas possíveis em diferentes momentos.
Um ponto delicado é confundir autenticidade com falta de educação. Em nome de uma suposta sinceridade, muitas pessoas atravessam limites e produzem rupturas desnecessárias. Autenticidade exige sensibilidade e discernimento. Nem tudo precisa ser dito, nem toda verdade precisa ser colocada de forma crua. Existe uma autocensura saudável, aquela que leva em conta o contexto e o outro, e existe a autocensura que esconde a verdade por medo, interesse ou manutenção de poder.
Relações de poder

Falando em poder, autenticidade também se articula com relações de dependência e hierarquia. Política, politicagem e diplomacia não são sinônimos. Eliminar a consciência política das relações é uma forma de manipulação. Muitas decisões que se apresentam como neutras são, na verdade, atravessadas por interesses pessoais em detrimento do coletivo. Os chamados donos da verdade frequentemente operam pelo medo de perder poder.
A abordagem importa. Dependendo do público, a forma de dizer precisa mudar. Ninguém quer ouvir a verdade de imediato quando ela confronta crenças já estabelecidas. Onde há discordância, há resistência. Ideias precisam de tempo para se concatenar. Por isso, algumas pessoas evitam determinadas palavras, não por limite real, mas por medo imaginário. Desdenhar, muitas vezes, é uma forma de desejar sem assumir.
Outro aspecto relevante é a relação com a exposição. Há quem se exponha excessivamente, produzindo constrangimento generalizado. Não se trata de juízo moral, mas de investigar o que se tenta esconder com tanta exposição. Em outros casos, o extremo oposto aparece, pessoas que gastam uma enorme quantidade de energia para proteger sua intimidade. Até que ponto isso é saudável? A análise é o lugar privilegiado para falar do que não encontra espaço em outros vínculos.
Por fim, a autenticidade também transforma os relacionamentos. Conversas francas são fundamentais para o relacionamento, especialmente com aqueles com quem se tem intimidade. Você consegue falar dos seus desconfortos com quem está próximo? Ao longo do tempo, é natural revisar amizades. À medida que a autenticidade se constrói, algumas relações deixam de fazer sentido. Não porque alguém esteja certo ou errado, mas porque os caminhos já não se encontram da mesma forma.
Autenticidade, portanto, não é um ideal a ser alcançado, mas uma construção contínua que exige escuta, implicação e coragem para sustentar escolhas. E, muitas vezes, é no espaço da análise que esse caminho se torna possível.

Oi, sou a Patrícia Albanez!
Sou psicanalista lacania e minha prática está fundamentada no estudo constante da obra de Lacan e Freud, com participação ativa em grupos de formação, supervisão clínica e pesquisa. Afinal todo bom analista investe em sua formação contínua!
Recebo na minha clínica adultos, que sofrem com atravessamentos como relações conflituosas, angústia, vazio existencial,repetições inconscientes e impasses subjetivos entre outros tantos.
Bora construir algo diferente?
Estou aqui pra te ajudar, me chamada no Whatsapp e vamos marcar sua primeira sessão.
Me acompanhe no Instagram onde você pode me conhecer melhor, será um prazer ver você lá:
https://www.instagram.com/patialbanez




